Luís Fernando Gaido
Alterado em
Minha Carreira
Como eu me tornei programador
Assim como a maioria dos eventos que determinam os rumos de nossas vidas, eu não me tornei programador deliberadamente.
Eu não acordei um dia e disse: "Hum, taí. Vou ser programador." Ao invés disso, ocorreram eventos mais ou menos aleatórios que moldaram a minha formação e que permitiram que eu prosperasse nessa carreira. Essa análise em retrospecto, contudo, descreve o que funcionou estritamente para mim. Não descreve uma forma geral e efetiva.
Neste post, eu relato os eventos históricos que influenciaram direta e indiretamente a minha formação como programador. Concluo tecendo correlações de causa e efeito que podem ser úteis para outras pessoas.
Eu não podia brincar na rua, mas podia ler
Meus pais moraram a maior parte de suas vidas na casa dos meus avós paternos. A minha primeira passagem por lá foi dos 5 aos 14 anos. Naquele tempo a minha avó era ativa na minha criação. Eu saía muito pouco de casa para brincar na rua. Mas eu tinha à minha disposição vários livros na estante da sala. Eu não fui estimulado à leitura, mas a presença deles aliada à pouca liberdade não me deram muitas escolhas. Eu me acostumei com os livros e por isso me tornei um aluno destacado no Ensino Fundamental.
Quando eu tinha 7 anos, exatamente no ano de alfabetização, houve uma greve de professores que durou 40 dias. Quando as aulas retomaram, eu estava adiantado, pois havia lido a cartilha.
Tempos depois, li toda a enciclopédia da estante. Desde o verbete "abacate". Eu ajudava a minha irmã nos estudos, que é 8 anos mais velha que eu.
Certamente o fato de eu não poder sair de casa para ralar uns joelhos ou rolar na porrada com a molecada teve algum ganho. Por muitos anos eu vivi com um pouco de raiva e amargura pela rigidez de minha avó. Mas analisando em retrospecto, essa rigidez foi o fator único mais importante para a minha formação, e hoje sou grato por isso.
Escrivaninha, régua, papéis e calculadora
Eu mexia nos materiais de escritório do meu pai. Desenvolvi gosto pela matemática logo cedo brincando com uma calculadora que fazia um som peculiar ao ser ligada.

Quando aprendi na escola regra de três e proporção de mapas, passei a utilizar uma trena para medir posição no quintal e taxa de crescimento das arnicas e girassóis. Fazia gráficos de barra e mapas. Eu ficava maravilhado com aquelas representações em papel sulfite. No início, eu media as plantas todos os dias. Mas como o crescimento era quase imperceptível, passei a medir apenas aos sábados. Eu me lembro do cheiro das arnicas e a alegria que era encontrar alguma nova para passar a medir.
Aprendi a gostar de matemática e lógica desde cedo.
Pequeno escritor
Em 1992, quando eu tinha 10 anos, ganhei uma agenda. Ela continha umas 5 linhas para cada dia do ano. Eu usava como diário e descrevia as amenidades que eu vivia, como desempenhos em sessões de vídeo game ou brigas com minha irmã.
Em 1995 comecei a escrever recorrentemente em cadernos universitários. Foram milhares de páginas ao longo de anos. A essa altura meus pais, minha irmã e eu morávamos em outra casa. Finalmente consegui fazer parte de círculos de amizade fora da escola. Ainda assim, os hábitos da leitura e escrita estavam tão solidificados que eu dedicava boa parte do meu tempo debruçado em reflexões com canetas, cadernos, dicionários e outros livros. Eu devorei todos os livros da minha tia.
Hoje é sabido que o hábito de refletir recorrentemente sobre a vida mantendo diários é tido como meio para o auto-conhecimento.
Agenda eletrônica
Meus pais me deram uma agenda eletrônica que eu paquerava todos os dias na vitrine da papelaria perto da casa da minha avó materna.

Eu gostei tanto que eu passava o dia todo com ela. Eu me lembro dos sons metálicos que ela fazia ao se digitar. Eu a enrolava com cuidado em um pano para não riscá-la. Aprendi todos os recursos. A primeira vez que eu recebi algo em troca de conhecimento foi ensinar um homem a utilizar uma agenda como essa. Ele era cliente da papelaria e me deu um jogo de canetas chiques, blocos e clipes no valor de 19 reais. Eram tão bonitas que eu as guardei sem nunca utilizá-las. Bem, meu pai não tinha tanto apego e as utilizou até estragar tudo, mas isso não vem ao caso...
Não era uma máquina potente, nem programável, nem muito útil. Eu anotei os telefones e datas de aniversário dos meus amigos e parentes. Havia também um bloco de notas. Mas eu já ficava fascinado com a quantidade de palavras que cabiam naquele dispositivo.
Xadrez na alegria e na tristeza
Certa vez, por volta de 1995, andando com minha irmã no Bauru Shopping, avistei um pequeno jogo de tabuleiro em uma caixa de papelão. Ela comprou pra mim. Eu li as instruções no verso da caixa e em algumas horas estava emulando partidas de xadrez sozinho. Alguns livros depois disso estava sedimentada uma das maiores paixões da minha vida. Paixão que me acompanha até hoje. Fiz bons amigos com o xadrez, ganhei um punhado de medalhas e até cheguei a dar aulas de xadrez em algumas escolas. Eu também seria posteriormente demitido de dois empregos por ter sido pego jogando xadrez com computadores no horário de expediente. Eu jogava xadrez no café da manhã, antes de difíceis provas de estatística, tamanha a minha paixão.
Por muitos anos eu viria a dividir igualmente xadrez e programação como minhas maiores paixões. Com o tempo, a programação foi tomando mais espaço e hoje eu apenas me distraio jogando xadrez.
Por muitos anos eu viria a dividir igualmente xadrez e programação como minhas maiores paixões. Com o tempo, a programação foi tomando mais espaço e hoje eu apenas me distraio jogando xadrez.
Como eram legais os computadores!
Em 1995 ou 1996, na esquina da quadra de casa, em uma residência adaptada, um homem abriu uma escola. O nome que ele deu foi D&D Informática. Você não vai encontrar no Google. O Google nem existia...
Aquele homem era o dono da escola, e também era um dos professores. Ele era, aliás, o dono da casa que morávamos de aluguel naquela quadra.
Fiz curso de digitação. Fiz curso de DOS, de Windows, de DBase... Ele era muito legal e nos deixava ficar lá mesmo fora da aula. Levaria ainda quase 10 anos para eu poder ter meu próprio computador. Então eu aproveitava ao máximo.
Eu me lembro da empolgação que estava, sentado em uma sala adaptada, com o professor explicando o que um computador faz. Ele desenhava na lousa branca com caneta sobre inputs e outputs processados, sobre o sistema binário etc.
Havia lá mais professoras e eu gostava muito deles, como por exemplo o Ailton. Sempre que nos encontrávamos anos depois eu fazia questão de dizer como ia a minha vida de programador.
Foi através da D&D que eu consegui meu primeiro emprego: digitador em uma loja de materiais de construção. Lá eu ficava lançando cheques no Word e vendas em um sistema desenvolvido em Clipper, feito pelo meu professor. Aquilo era incrível.
Alguns anos antes, meu primo consertava computadores e eu tive a oportunidade de ver alguns 386 e 486 no quartinho do meu falecido avô materno e que agora recebia a função de oficina de informática. Aquele quartinho teve muitas funções ao longo das décadas! Eu me lembro da empolgação dele me explicando o que era um co-processador matemático. Eu não entendia nada, mas ele se esforçava para me explicar.
Juntando essa proximidade recente com os computadores aos filmes de ficção científica, como Robocop, eu não tinha dúvidas: queria estar perto dessas máquinas.
Eu era meu melhor amigo
Alguns colegas não tinham os mesmos interesses, e alguns deles chegavam até a zombar de mim, perguntando-me coisas apenas para rir do meu esforço em tentar responder.
"Como funciona uma escada rolante?"
Demorou um pouco para eu perceber a ironia da coisa. Na verdade eu precisei ser levado de canto por um colega que, cansado de rir de mim, me explicou que ninguém se importava com as coisas que eu dizia.
Certa vez eu fiz carteirinhas com os nomes dos colegas de sala e as entreguei para eles, como se fôssemos parte de um clube. Eu me lembro de cada um deles se levantando e indo jogar as carteirinhas no lixo.
As minhas redações eram elogiadas pelas professoras, e me lembro nitidamente de um dos alunos dizer que eu não poderia ter escrito aquilo.
A pré-adolescência não foi exatamente a melhor fase da minha vida com relação a amizades. Ainda assim eu vivi bons momentos de descoberta. Majoritariamente sozinho.
As coisas melhoraram com o tempo, principalmente na adolescência e início da idade adulta. Mas os momentos solitários nunca foram de fato um sofrimento para mim. Mesmo quando eu era jovem, nas baladas, eu me pegava sentado com olhar distante, pensando na resolução de algum problema de lógica intrigante.
No fundo sempre estamos sozinhos, usando os mesmos canais das outras pessoas e interpretando sinais mais ou menos aproximados do que elas querem dizer.
Um vestibulinho à vista
Em 1996, aos 14 anos, na oitava série da Escola Estadual Stela Machado, eu me juntei com dois amigos de sala: Alessandra e Gustavo. Nós éramos estudiosos e estávamos interessados no mesmo objetivo: passar no vestibulinho do Colégio Técnico Industrial Prof. Isaac Portal Roldán, considerado o melhor colégio de Bauru consecutivas vezes.

Estudamos os três concorrendo para as mesmas vagas, mas como amigos que éramos. E como tais, ocupamos três vagas na primeira turma das duas abertas para Processamento de Dados em 1997. Eu não tinha amigos em grande quantidade, mas sim em qualidade.
O CTI era um colégio sensacional, completamente diferente de tudo que eu tinha vivido. Havia mais rigidez. Era uma grade de meio período que mesclava matérias do Ensino Médio juntamente com estudos de programação. Havia também as temidas crediárias, que eram um sistema de avaliação de até 30% da média do aluno através de provas relâmpago que podiam ser aplicadas a qualquer momento pelo professor. Isso forçava os alunos a não faltarem e a prestarem atenção o tempo todo.
Passar pelo ensino médio estudando em um dos melhores colégios de Bauru e região certamente foi decisivo para a minha formação. O conjunto de conhecimentos técnicos e práticos ali adquiridos, juntamente com a rigidez e o grau de dificuldade aos quais fui exposto, ratificaram meu interesse em estar perto de computadores.
O que é um algoritmo?
Eu me lembro do professor explicando através de exemplos o que era um algoritmo. Ele pediu para que nós descrevêssemos em detalhes no caderno, passo a passo, coisas como:
- fritar um ovo
- jogar papel no lixo
- pegar um ônibus

Desde o primeiro instante eu fiquei fascinado: "Então quer dizer que sou eu quem vai dar comandos para um computador executar? Isso é demais!"
Não demorou muito para que começássemos a dar ordens para os computadores calcularem médias, imprimirem mensagens com base em decisões, salvar dados em arquivos etc.

Eu nunca mais perdi o encanto por isso. Mesmo passados 25 anos, é extremamente prazeroso descrever em detalhes o que uma máquina precisa fazer para atingir os resultados esperados por nós. Os brinquedos e os desafios apenas ficaram maiores.
Instrutor de informática
Em 1999 passei a dar aulas de informática em um colégio como forma de estágio. Quando eu me formei no CTI, foram necessários dois anos para que eu conseguisse entrar na faculdade. Neste período eu trabalhei em algumas escolas de informática da cidade.
Vestibulares
Em abril de 2000, aos 18 anos, consegui uma bolsa em um colégio particular por indicação de minha chefe Cristina na Dataflash Informática. Isso foi muito bom, pois os meus pais não tinham condição de me pagar cursos preparatórios. Ali eu estava correndo atrás das matérias que fatalmente ficaram defasadas por conta do misto de matérias técnicas e ensino médio no meio período do CTI. Naquele ano eu nem chegaria perto de conseguir: 169º lugar para 30 vagas. Os tempos de melhor aluno da classe no Stela Machado haviam ficado para trás. Ter estudado por 3 anos com alguns dos melhores alunos de Bauru e região no CTI mostraram para mim que havia pessoas bem mais preparadas e inteligentes.
Mas eu não desisti. Sempre me mantive curioso e interessado em reforçar meus conhecimentos mais fracos, como Química.
Em 2001 consegui me qualificar para o curso pré-vestibular para alunos de baixa renda promovido por alunos da Unesp. Eu também decidi não trabalhar por alguns meses e focar nos estudos, após ter sido demitido jogando xadrez com computador na escola de informática Bit Company.
Naquele ano eu me destaquei entre os 50 alunos da sala, sendo o primeiro colocado nos dois primeiros simulados. Um dos coordenadores me chamava de Brahma, em alusão ao comercial de TV. Ora, se eu era o melhor entre 50 alunos já selecionados via vestibulinho, parecia que eu estava no jogo.
Um fato curioso é que eu quase fui expulso do curso por ser pego jogando xadrez no meio da aula. O cara que me chamava de Brahma queria me expulsar, mas foi voto vencido entre outros professores.
Eu parei de fazer os simulados pois estavam colocando uma pressão muito grande sobre mim. Tinha uma nerd que queria fazer ITA que era a cara da vitória e que todos achavam que era melhor. Eu não estava gostando dessa constante pressão sobre quem era o melhor ali. Ninguém ali de fato era meu concorrente. Nem mesmo quando eu estudei para o CTI com meus amigos eu os encarei como concorrentes!
Quando questionado pelos outros alunos, respondia: "Eu sei o que eu não sei." Mas eu passei a ajudar muitos colegas naquele ano. Eu me lembro de uma colega dizer: "Você leva jeito para ensinar." É muito interessante como pequenas frases de incentivo têm tamanho impacto na motivação das pessoas.
Ainda assim, houve um período de hesitação. Eu tinha medo de não conseguir passar mais uma vez, e até cogitei matemática, mas minha mãe e meu amigo Gustavo (sim, aquele mesmo dos estudos para o CTI) conseguiram meu convencer no último dia antes da inscrição. Foi a melhor coisa que fizeram por mim, pois eu passaria em 16º.
Predisposição ou preparo?
Um fato interessante é que eu fiz um teste vocacional naquele ano de 2001 e, contrariando a minha própria expectativa, a minha maior área de interesse era linguística, e não matemática. Analisando em retrospecto, faz todo sentido esse resultado após milhares de página escritas durante minha adolescência.
No ano passado, um estudo revelou que, quando programadores experientes trabalham, a maior parte da atividade cerebral acontece na rede responsável pelo raciocínio lógico, embora na região esquerda do cérebro, que é favorecida pela linguagem.

Isso é corroborado por outro estudo. Cientistas do MIT descobriram que, em alguns aspectos, a ação de aprender a programar um computador é semelhante à prática de aprender um novo idioma. Apesar dessa similaridade, os neurocientistas observaram que o ato de ler o código de computador não ativa somente as regiões do cérebro envolvidas para favorecer a linguagem.
Embora a leitura de código de computador ative a rede de demanda múltipla, ela parece depender mais de diferentes partes da rede cerebral do que somente das que resolvem os problemas de matemática ou lógica, por exemplo. O estudo indica que entender o código do computador parece ser algo peculiar. “Curiosamente, enquanto a matemática e a lógica geralmente ativam várias regiões de demanda no hemisfério esquerdo, o código do computador ativou ambos os hemisférios”, diz a cientista do estudo, Anna Ivanova.
Isso é muito curioso, pois eu posso ouvir podcasts enquanto jogo xadrez, mas não consigo fazer o mesmo enquanto programo. Certamente a programação demanda muito mais do cérebro.
Eu naturalmente exercitei desde criança atividades lógicas e linguísticas por uma quantidade de horas que eu nem posso estimar, e isso parece de alguma forma ter sido decisivo em minha carreira.
Sistemas de Informação na Unesp
Entrei no início de 2002 em período noturno. Nos primeiros 6 meses eu reforcei os conhecimentos que eu já tinha aprendido anos antes no CTI. Depois disso, praticamente tudo era novo e muito desafiador.
Era muito marcante o fato de fazermos provas de algoritmos em folhas de almaço, tendo apenas a mente como debug. Para tornar o processo mais difícil, eu ainda não tinha computador em casa, e precisava escrever a mão centenas de exercícios para depois testá-los nos computadores da faculdade entre as aulas. Era uma alegria muito grande quando, somente às vezes, sem nenhum ajuste no código, os programas rodavam exatamente como o esperado, como séries de Taylor para cálculo de seno! Eu não tenho dúvidas de que esse processo de aprendizado aumentou a capacidade de abstração.
Voltei a dar aulas
Naquela época, minha mente estava afiadíssima por conta dos estudos intensos. Eu era até capaz de jogar xadrez de olhos fechados e resolver divisões com vários dígitos de precisão. Foi o meu auge mental.
Voltei a dar aulas dos mais diversos assuntos: física, química, matemática, língua portuguesa, inglês, xadrez, informática lógica etc. Dei aulas para crianças que precisavam de recurso escolar, para alunos que tinham interesse em passar no CTI ou mesmo em vestibulares. O êxito de meus alunos era o meu êxito. Foram muitos e sempre gratificantes.
Para mim era muito fácil e muitas vezes eu aprendia em tempo real para ensinar. Eu geralmente lia o material do aluno durante a sessão e, em questão de minutos, interpretava e explicava de uma forma que o aluno pudesse entender.
Eu sempre gostei de ensinar. Quando criança, ensinei muitos amigos a jogar xadrez em sessões que duravam 40 minutos.
Concursos dos Correios
A primeira metade da década de 2000 foi a era de ouro de concursos. Muitos colegas de faculdade passaram nos Correios e na Caixa.
Naquela época, formar-se na faculdade e ter um bom e estável emprego era o sonho de muitos jovens, apoiados pelas sua famílias. Eu segui por esse rumo sem sequer cogitar alternativa. Analisando em retrospecto, essa visão limitada fez mais mal que bem para a minha carreira, mas isso é tema para outros posts no futuro.
Em 18 de outubro 2004 entrei nos Correios após passar em um concurso externo como Assistente Administrativo nos Correios. Em 2006 passei em um concurso externo para Técnico Administrativo. Em 2009 passei em um concurso externo para Analista de Sistemas em São Paulo. Fazia 9 meses que namorava a mulher que se tornaria minha esposa anos depois. Morei em São Paulo por cerca de 1 ano e meio, conseguindo retorno a Bauru. A maior parte desse tempo morei com um grande amigo feito no CTI, Rodrigo.
Voltando um pouco a 2004, quando entrei nos Correios, eu não era analista de sistemas. Nem formado, nem concursado. Mas mesmo durante os primeiros meses eu já demonstrei disposição para o desenvolvimento de software. E foi ali na área de gestão da frota que eu comecei a construir os primeiros softwares que realmente tinham utilidade prática. Por todas as áreas pelas quais passei, sempre deixei alguns sistemas que controlavam atividades administrativas cotidianas.
Iniciei sistemas em Access com VBA, depois parti para Visual Basic, .NET e SQL Server. Finalmente em meados de 2005 conheci PHP, MySQL e Javascript. E então a paixão bateu muito, muito forte. Não demorou nada para eu começar a desenvolver meus primeiros sistemas encomendados por clientes diretos. Foram os anos mais agitados, quando eu me dividia entre expedientes de trabalho, faculdade, festas e estudos de programação. Desde 2005 até hoje, quase 18 anos depois, desenvolvi uns 40 sistemas e nunca mais cogitei fazer outra coisa da minha vida. As aulas particulares ficaram para trás, dando lugar a projetos e mais projetos dentro e fora dos Correios.
Três empregos
Criei a minha própria carteira de clientes, com a qual eu podia exercitar ao máximo a minha criatividade e senso prático. Nem sempre era possível fazer isso dentro dos Correios, que é uma empresa grande, pública e com grande tendência a trabalhar com processos de caixas e departamentos, e não com foco no resultado direto nas soluções de software voltadas para os clientes.
Eu também me associei com dois amigos de faculdade, Tiago e Fabiano, e criamos a empresa Profinanc. Lá eu me dediquei a desenvolver softwares para concessionárias de veículos. Hoje somos um relevante player neste mercado e provavelmente será a nossa previdência.
Nenhum projeto, empresa ou cliente me deu todas as condições para satisfazer minhas curiosidades de desenvolvimento de software.
Eu cheguei a trabalhar em 6 projetos simultaneamente. É fato que colapsei duas vezes, mas isso é assunto para outro post.
O verdadeiro estudo
Mesmo passando pela formalidade de colégio técnico e faculdade, a coisa realmente ficou séria quando os problemas reais se impuseram diante de mim. Honestamente eu não sei dizer quanto da faculdade me ajudou a resolver problemas reais, mas o fato é que eu jamais parei de estudar para resolver os mais diversos tipos de problemas. Aprender foi se tornando cada vez mais fácil.
A mais importante vantagem de estar nos Correios foi a chance de criar tempo para estudar linguagens e conceitos formais. Eu não precisei, ao me formar na faculdade, procurar preencher vagas que pediam React quando eu nem sabia direito o que era Javascript.
Eu me dei o direito de entender conceitos e linguagens antes de ferramentas e frameworks, formando uma sólida base de conhecimento em que tudo se encaixaria e faria sentido com o tempo.
Programação é complexa, uma sopa de letrinhas que confunde bastante os iniciantes. Mas eu tinha todo o tempo do mundo para ler livros e apostilas mesmo estando empregado e entregando alguma utilidade para a empresa.

Eu nunca esperei que a empresa me desse a formação que eu precisava para desenvolver minhas atividades. Na verdade, eu aprendia o que era necessário e muito mais, sem me preocupar com o pagamento no final do mês. Eventualmente eu viria a retribuir para os Correios cada hora de estudo, mas isso também é tema para outro post.
Conclusão
Fatores que me ajudaram a ser um bom programador:
Milhares de horas de matemática. Há aqueles que defendem que não é necessário estudar matemática para ser um programador. Mas eu digo: depende que tipo de programador você quer se tornar. Se for para ser um programador casual, não é necessário. Se for para preencher uma vaga neste mercado que carece de profissionais, não é necessário. Mas se você realmente quiser se tornar um bom programador, capaz de resolver uma grande gama de problemas, não se iluda.
Muita leitura e escrita. Parece um pouco óbvio, mas ser capaz de se debruçar sobre longos e densos textos tem se tornado cada vez mais raro. A programação é uma forma de escrita, e dominá-la exigirá que você consiga traduzir conceitos e ideias através de linguagens naturais e de programação.
Estímulo a sessões de foco e concentração. Assuntos complexos e de alto valor agregado não são dominados sem absoluta concentração. Se você não for capaz disso, as vagas de trabalho que conseguirá preencher serão de baixo valor e você poderá ser facilmente substituído. Atualmente ficar sem um celular piscando por perto, ou não ficar alternando entre redes sociais é quase que uma arte antiga dominada por monges. Se você não for capaz de estar apenas consigo mesmo por longos períodos, terá problemas.
Ensinar o que aprendi. "Se você não consegue explicar algo de modo simples é porque não entendeu bem a coisa." - Autor Desconhecido.
Ser capaz de traduzir conceitos em outras palavras é uma excelente forma de consolidar conhecimento, pois envolverá mais áreas do cérebro. Além disso, você torna o mundo em que vive um pouco melhor.
Nunca tirar de mim a responsabilidade de aprender. Desde pequenos costumamos colocar culpas nos outros. Eu não consigo contar quantas vezes ouvi frases do tipo:
"Não gosto de matemática por causa do professor."
"A empresa tem a obrigação de me dar treinamentos."
"Eu não sou capaz."
O que você sabe e é capaz de fazer com o conhecimento é de sua única e exclusiva responsabilidade. Fazer diferente disso é dar poder demais aos outros, é entregar as rédeas de sua vida. É o mais poderoso analgésico para o seu fracasso.
Crie muitos projetos reais em diferentes áreas. Quanto mais variados forem os tipos de problemas que você se propõe a resolver, mais ferramental terá para resolver novos problemas. Você conseguirá dizer mais vezes a frase "Esse é dinheiro fácil" sem ser um cafajeste.
Estude conceitos e linguagens antes de frameworks. Se estiver precisando muito preencher uma vaga de emprego e trazer dinheiro para casa, está OK. Mas crie oportunidades para entender os conceitos por trás das ferramentas.
Ser curioso e automotivado. Não faltarão pessoas para te desmotivar ou criar dificuldades. Apesar de existirem muitas pessoas boas e que te ajudarão, e meus relatos comprovam isso, eventualmente você estará sozinho. Nesses momentos é preciso que não dependa dos outros para manter sua motivação e curiosidade.
Entender que o progresso não é uma linha reta. Eventualmente você vai fracassar. Muitas vezes. Incontáveis vezes. O progresso funciona mais como uma expiral, e não como uma linha reta.
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